(i)mortalidade
(com spoilers sobre o The Road do Cormac McCarthy)
o que leva qualquer ser a lutar pela vida incondicionalmente?
nas situações mais adversas, nas piores que imaginar se possa, luta-se pela vida à custa de quê? e porquê? se nada mudar por isso, se as condições continuarem miseráveis, se a vida for um peso a cada passo, vale mesmo a pena continuar a andar, à procura da próxima luta, com a fome, a doença, o desespero, a ausência de tudo a pesar em cada passo que se dá, vivendo?
não concebo a vida assim. ter filhos possivelmente condicionaria isso, mas se decidir ter um filho é um acto egoísta, decidir manter uma vida de sofrimento para ambos, não o será mais e pior?
o The Road descansa as consciências com o seu fim. diz-nos que afinal tudo valeu a pena porque se salvou quem mais importava.
é a falha do livro: o descanso final, tipo brinde, depois de um relato duro e sem falsas esperanças. seria mais honesto deixar-nos com um fim incerto. não acredito naquele fim. é montado artificialmente, como que para nos fazer sentir que aquele caminho duro teve afinal uma recompensa. é nisso que nos tentam fazer acreditar desde sempre: luta que serás recompensado. e a verdade é que raramente isso acontece. só ganhamos mais uma batalha pela frente, novamente à espera da recompensa no fim dela.
não se sabe de onde vem aquela personagem, porque não se aproximou mais cedo, porque é tão providencial que só aparece quando tudo parece perdido, quando a luta do homem chega ao fim e se mostra tão vã e apenas o adiar de um futuro mais que certo. é por isso que não o “compro”. é só mais uma cenoura.
acredito na vida apenas quando se goza, um pouco que seja, o máximo que nos for possível. a vida onde o sofrimento é a norma, a dor o sentimento de todos os dias, não é vida. não merece o esforço de continuar a sofrer. quem tem a lata de exigir a alguém que sofra todos os dias só porque viver é suposto valer sempre a pena?
é uma das maiores petas do mundo. viver só vale a pena quando se aprecia estar vivo, quando se respira com prazer, quando se tem consciência que de vez em quando se vai saborear algo que nos faz ganhar o dia. saber todos os dias quando se acorda, que até se adormecer, quando se consegue adormecer, a única coisa que se quer é não sentir, é pior do que a morte. de certeza.


















Ou seja, tu na realidade não acreditas que no final alguém se salvou, logo a cenoura não era para ti de certeza.
E por isso é que eu acho que o final do livro é muito mais incerto do que o teu texto pode indicar.
mas salvou-se, ou o autor resolveu salvar. aquela personagem ali não faz sentido. pelo menos para mim não faz – soa-me a medida desesperada de salvar a esperança :/
acho sinceramente que o livro não precisava daquilo. fez-me lembrar a última meia-hora do AI do Spielberg.
Mas tal como no resto da história não há sensação de segurança nenhuma, não há qualquer espécie de conforto, tu dizes salvou-se, eu digo, passou daquele momento para o seguinte e não morreu.
num mundo onde só se cruzam com “maus”, onde a morte está sempre presente. uma viagem à procura de outros homens, e qdo esperamos que a criança fique só e eventualmente morra, é que aparece alguém que até parece já os tinha visto. pá, parece-me cómodo demais, má desculpa e mal cosido :/