26 de Abril

Segunda-feira, 26 (de Abril de 1937), às 16.30, os sinos da igreja-matriz de Guernica tocaram a rebate para avisar um ataque aéreo. Era dia de mercado e, embora os lavradores tivessem voltado para o extremo da cidade, muitos ainda estavam no interior, com o gado e as ovelhas. Os que vinham fugindo adiante das tropas avançadas juntamente com a população da cidade, desceram às adegas, denominadas «refúgios». Um único bombardeiro Heinkel 111, pertencente à «esquadrilha experimental» da Legião Condor, sobrevoou a cidade, largou a sua carga mortífera no centro e desapareceu. A maior parte das pessoas qaiu dos abrigos, muitas foram ajudar os feridos. Um quarto de hora mais tarde, toda a esquadrilha sobrevoou a cidade, largando bombas de todos os tamanhos. As pessoas correram para os abrigos, sufocando com o fumo e a poeira. Aperceberam-se então de que as adegas não eram suficientemente fortes para resistir às bombas mais pesadas. Começou a debandada em direcção aos campos circunvizinhos; foi então que esquadrilhas de caças Heinkel 51 varreram o terreno, metralhando e lançando granadas sobre homens, mulheres e crianças, freiras do hospital e até sobre o gado bovino e ovino. No entanto, a parte principal do ataque ainda nem sequer tinah começado.
Às 17.15, ouviu-se o roncar sonoro dos motores dos aviões. Os soldados logo o identificaram como os «carros eléctricos», alcunha dos potentes Junkers 52. Três esquadrilhas vindas de Burgos bombardearam em tapete a cidade, sistematicamente, a intervalos de 20 minutos, durante duas horas e meia. («Bombardear em tapete» foi justamente uma expressão inventada pela Legião Condor, ao atacar as posições republicanas em redor de Oviedo.) As cargas eram constituídas por bombas de tamanho pequeno e médio, bem como bombas de 500 quilos, antipessoais de vinte libras, e incendiárias. As incendiárias eram espalhadas pelos Junkers em tubos de alumínio de duas libras, como confetti metálicos. Testemunhas oculares descreveram as cenas resultantes em termos de inferno e de apocalipse. Famílias inteiras ficaram soterradas nos escombros de suas casas ou esmagadas nos refúgios; vacas e ovelhas, ardendo em térmite e fósforo branco, corriam como loucas por entre os edifícios em chamas até caírem mortas. Seres humanos enegrecidos cambaleavam às cegas no meio das labaredas, fumo e poeira, enquanto outros cavavam os destroços, esperando desenterrar amigos e familiares. As baixas subiram até quase um terço da população da cidade – 1654 mortos e 889 feridos. As pessoas que se dirigiam à cidade, provenientes de Bilbau, alteraram a sua descrença inicial assim que avistaram, à distância, o céu avermelhado. O edifício do parlamento e o carvalho ficaram intactos, por se encontrarem fora da linha de voo que os pilotos tinham seguido rigorosamente. O resto de Guernica ficou transformado num esqueleto queimado.


Antony Beevor, A Guerra Civil de Espanha

Guernica, Picasso

~ por salamandrine em Abril 26, 2008.

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