Deixar andar
Deixarmo-nos ir: Andar, sem estrada nem Kerouak, sem vontade de ver o mundo. Deixarmo-nos ir ao sabor dos dias em que o silêncio medita como um Deus, como definiu Roberto de Mesquita. Esses dias contemplam tudo — trabalho, filhos, amigos, trânsito — mas não incluem nada. Como assim? Mesmo sem o ópio de Pessanha, é possível viver duas idas muito distantes uma da outra.
Uma, a das obrigações e reconhecimento diário, recebe a agenda e executa-a. Se tem de ser pôr a mesa para o jantar, põe-se a mesa para o jantar e não se fala mais disso. O jantar é certo. Se temos de ir trabalhar, não existe propriamente uma opção, caso contrário não haverá jantar no dia seguinte. Se beijamos os filhos quando a noite já os comprou, fazemo-lo com gosto e uma bizarra esperança. A alternativa é a vigília estéril e uma indigestão garantida.
Estas coisas fazem parte da vida que se faz, a acção comanda o corpo e o cérebro. Mas há a outra vida, que contempla tudo isto e no entanto não inclui nada disto. É uma vida que não liga os pontos, que não costura. Contempla mas não inclui.
Essa outra vida é, a bem dizer, outro andamento. Ricardo Reis abre uma fresta: «Recebo o que me é dado/ e o que me falta não quero./ O que me é dado quero/ Depois de dado, grato./ Nem eu quero mais do que é dado/ Ou que o tido desejo.»
Não esperar nada, não desejar nada: já ouço o silvo das balas dos caçadores de niilistas. Calma, guardai as pistolas.
Muitos de nós vivemos hoje (e ontem também, a julgar pelos ensinamentos dos antigos) desejando muito e agradecendo pouco. Os remediados não têm outra alternativa; já os pobres que chegam em botes de madeira à Europa vivem na simetria: desejam pouco e agradecem tudo. Nós, como queremos sempre mais do que nos é dado, devolvemo-los à proveniência e em força.
Regressemos ao homem comum que não vigia barcaças de imigrantes: «Cessarás de temer se cessares de esperar.» (Séneca, «V Carta a Lucílio>.) Esperar é precisamente o que não se faz na vida que proponho. Deixar andar significa a aceitação de um movimento que possui alma própria. Não se trata de alto estoicismo, que pertence a um tempo de escravos e de figos a horas certas. Desenhemos antes a possibilidade de nos colocarmos, por vezes, no exterior da nossa própria vida: sermos guarda-freio e Jesse James ao mesmo tempo ou, na fórmula dos negros do Save moçambicano, um cágado: assim alcunhavam o maquinista que punha a cabeça de fora da encarapaçada locomotiva. Então o que pode ser deixar andar?
Quando morremos, a nossa vida — os que fazem a nossa vida — anda. Passado o tempo do sobressalto, os nossos filhos continuam a ir à escola, o Sol continua a nascer e os peixes continuam a nadar; os nossos amores encontram nova cama e o nosso cão continua à nossa espera. Como sempre fez.
Se pudéssemos ver, veríamos como essa vida, qual viola chinesa (outra vez Pessanha), vai adormecendo a parlenda. As coisas correm, não somos tão decisivos como julgamos. Então porque não aproveitar, de vez em quando, essa autonomia do mundo?
Dirão alguns que não se descortina ganho em tal empresa. Talvez, mas quando nos empenhamos como lobos, quando obrigamos os outros a seguir um caminho que não desejavam, frequentemente tudo se resolve ao contrário do que esperávamos.
Podemos mudar as coisas? Tudo podemos é um epíteto da modernidade tardia. É o avô desdentado de uma neta chamada felicidade, azarotada jovem que rebola com os pastores e bebe leite fresco. Muito desejar e muito esperar confere a ilusão de que comandamos as tropas; ficar de lado, como um espectro sobre o campo de batalha, resulta numa certa indiferença sobre o resultado: morre sempre alguém, não morre? Na nossa vida também se magoa sempre alguém.
Então deixemos as árvores procurar a sua água, deixemos os outros em paz. Ou como Sandro Penna disse, un fiore chiama l’altro.
Filipe Nunes Vicente
crónica Faca de Seda, para a revista Ler









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