Pilar Del Rio

Então, porque é que eu sou polémica?

Porque a maior parte dos portugueses a olham como a mulher que foi responsável por levar José Saramago para Espanha.

Não, foi o Governo de Cavaco Silva! Dê outra razão…

Por ter opiniões muito próprias e não ter qualquer problema em as afirmar.

Os inteligentes adoram encontrar personagens com opinião própria, os ignorantes é que não.

Não quer ser politicamente correcta?

Não.

Considera que a imprensa em Portugal não é livre e serve os interesses de certos grupos?

Penso que a imprensa não é livre no mundo inteiro e cada dia existem mais grupos de pressão que, economicamente, têm de atender muitas frentes. Por isso há cada vez mais boletins informativos e menos jornais e todos respondem a um pensamento politicamente correcto porque o que sai daí não existe e os jornalistas também não oferecem resistência. Os jornalistas são de maneira geral muito mal pagos, salvo as estrelas, e têm muita dificuldade em ter opinião própria. Fazem o que pensam que irá agradar às suas empresas.

Também é jornalista. Sente essas pressões?

Sim, claro.

Consegue ser livre no programa na rádio?

Claro, eu consigo porque tenho muitíssimos anos de trabalho e porque sei que no final acabam sempre a dizer “são coisas da Pilar”. Tratam de reduzir-me a uma anedota mais ou menos simpática, mas sei que sou a cereja sobre o bolo.


Ainda é de uma geração em que acha que a imprensa podia mudar o mundo?

Não, eu penso que são os seres humanos que têm capacidade para mudar o mundo e não os jornalistas. Não me contento em ser uma notária e fazer registos, nunca fiz um jornalismo neutro e enjoa-me, vomito no jornalismo neutro. Faço um jornalismo que assina a notícia, que vê o mundo de uma maneira determinada e não se conforma com dizer as coisas reconhecidas ou o que recebe das grandes agências. No entanto, o jornalismo não muda o mundo, mas os jornalistas não podem ser tão idiotas que reproduzam o discurso dos centros de poder como costumam fazer.


Sabe-se que aprecia muito Hugo Chávez…

Seguramente não é a pessoa com quem vou tomar café à tarde. Tanto faz que goste ou não, mas é a pessoa que está a pôr água e luz nas casas onde não havia, faz escolas e preocupa-se com a saúde. Aplaudo isso e está a repartir a riqueza de um país em que só se dividia a pobreza. Se nunca tivesse tido água em casa, nem luz, nem escola, nem saúde, votaria em Chávez todos os dias.

De que ideologia gosta?

Não é a que gosto, é a que tenho!


Zapatero abraça todas as bandeiras gay. Para ganhar votos ou porque acredita?

Zapatero abraça as bandeiras que são direitos humanos e veio corrigir um défice democrático. E a legalização dos casamentos homossexuais é um défice democrático.

 

Excertos de entrevista conduzida por João Céu e Silva no DN – “Presidenta, porque sou mulher!”

~ por salamandrine em Julho 6, 2008.

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