anomalia

Mahfoudh vê desvanecer-se pela primeira vez a perspectiva de ir apresentar o seu invento à Feira de Heidelberg, e isso deixa-o triste e revoltado.
Há três dias, sentia-se cheio de confiança, disposto a bater-se como um homem que se sente lesado para conseguir aquilo que lhe era devido; na recusa que lhe opunham não via senão uma anomalia que iria ser como tal reconhecida; mas o aparelho administrativo e policial surgia-lhe agora com um outro rosto, feito de indiferença e imobilidade, todo-poderoso e absurdo.
Mahdoufh já tinha passado por isso. Mas julgava que isso fora um acidente, uma excepção, não a regra. Corredores rectilíneos, intermináveis; paredes silenciosas que não deixam filtrar o mínimo som que soe a humanidade. Mas para Mahfoudh, um homem incarna essa situação, esse circuito labiríntico. Esse homem tem bigode, é insensível e inculto, usa um fato deselegante, a gravata com o nó mal feito, as unhas ainda negras devido a uma actividade de camponês ou caixeiro. É o homem sem personalidade ou convicção, que parece reunir em si todos os critérios de promoção: começa pelo nível mais baixo e vai subindo regular e rapidamente os degraus subsequentes, porque esse homem nunca sobressai, porque não possui nem ideias nem o carácter que poderiam atrair sobre ele a atenção das pessoas.
Um velho colega de Mahfoudh, professor de filosofia, dissera-lhe um dia que, durante a sua já longa carreira, tinha aprendido a lidar com os seus confrades mais medíocres e mais versáteis, porque estava convencido de que eles se iriam tornar mais tarde importantes e até ministros. E nomeara alguns altos responsáveis que havia tratado por tu e sobre os quais tinha uma opinião muito pouco lisonjeira.


Tahar Djaout, Os Vigilantes
traduzido por Armando Silva Carvalho
Assírio & Alvim

~ por salamandrine em Julho 15, 2008.

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