A Cidade
A um indivíduo intelectual o campo tira-lhe tudo e não lhe dá (quase) nada, ao passo que a grande cidade dá ininterruptamente, só é preciso vê-lo e naturalmente senti-lo, mas são poucos os que o vêem e também que o sentem, todos os outros são, por isso, atraídos para o campo de uma maneira enjoativamente sentimental e aí sugados intelectualmente num brevíssimo espaço de tempo, esvaziados por completo e por último aniquilados sem remissão. No campo nunca a capacidade intelectual se pode desenvolver, só na grande cidade, mas hoje todos fogem da grande cidade para o campo, porque no fundo são demasiado comodistas para fazerem uso da cabeça, da qual, na grande cidade, muito se exige naturalmente de forma radical, esta é que é a verdade, e preferem definhar-se em meio da natureza, que admiram, sem a conhecer, de forma sentimental na sua estúpida cegueira, a usufruir das enormes vantagens da grande cidade e sobretudo da grande cidade dos nossos dias, vantagens que com o tempo e a sua história, se vão ampliando e multiplicando de forma prodigiosa, mas toda essa gente não está provavelmente em condições de as aproveitar.
Thomas Bernhard, O Sobrinho de Wittgenstein
tradução de José A. Palma Caetano
Assírio & Alvim
























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