da realidade
A verdade é que não acredito na existência das musas. Em primeiro lugar penso que o bichanar da criatividade, o sussurro do daimon e dos brownies, conseguem-se sempre à base de esforço (como dizia Picasso, que a inspiração te apanhe a trabalhar); e além disso estou convencida de que os musos e musas mais eficazes não são os amados reais, mas as ilusões passionais. Ou seja, a fabulação pura. Quanto mais longínqua, mais frustrada, mais impossível, mais irreal, mais inventada for a relação sentimental, mais possibilidades tem de servir de incentivo literário. Aquilo que é imaginário espicaça a imaginação, enquanto a realidade pura e dura, o ruído próximo da vida de cada um, é uma péssima influência literária.
Rosa Montero, A Louca da Casa
tradução de Helena Pitta
Asa Editores























