cloacas

O Café des Amateurs era a cloaca da Rue Mouffetard, essa maravilhosa rua estreita, sempre coalhada de gente, por via do seu mercado, que desembocava na Place Contrescarpe. As retretes de agachar das velhas casa de apartamentos — havia uma em cada andar, ao princípio das escadas — com os seus relevos de cimento estriado em forma de sapato de cada lado da abertura, para evitar que algum locataire escorregasse — davam para as fossas que à noite eram esvaziadas por meio de uma bomba, para o interior de carros-tanques puxados por cavalos. No verão, o barulho da bomba entrava pelas janelas abertas, acompanhado de fortes emanações. Os carros-tanques eram pintados de amarelo e de cor de açafrão, e quando, à luz da Lua, eles trabalhavam na Rue Cardinal Lemoire, os cilindros puxados pelos cavalos faziam pensar em quadros de Braque.
Mas a cloaca do Café des Amateurs é que ninguém esvaziava, e o seu cartaz amarelecido, onde se liam os termos e as penalidades impostas pela lei contra a embriaguez pública, era tão desprezado e estava tão sujo das moscas como os clientes eram assíduos e mal cheirosos.


Ernest Hemingway, Paris é uma Festa

~ por salamandrine em Agosto 23, 2007.

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