A Trama

Para que o horror seja perfeito, César, acossado ao pé de uma estátua pelos impacientes punhais dos seus amigos, descobre entre as caras e as lâminas a de Marco Júnio Bruto, seu protegido, talvez seu filho, e deixa de se defender e exclama: Também tu, filho meu! Shakespeare e Quevedo recolhem o patético grito.
Ao destino agradam as repetições, as variantes, as simetrias; dezanove séculos depois, no sul da província de Buenos Aires, um gaúcho é agredido por outros gaúchos e, ao cair, reconhece, um afilhado seu e diz-lhe com mansa reconvenção e lenta surpresa (estas palavras têm de ser ouvidas, não lidas): Pero che! Matam-no e não sabe que morre para que se repita uma cena.


Jorge Luís Borges
traduzido por Miguel Tamen

~ por salamandrine em Junho 7, 2008.

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