caridade

Quer um exemplo? Vasska trabalhou toda a vida para mim, como meu rendeiro. Este ano não teve trigo, está a morrer de fome, está doente. Dando-lhe presentemente quinze copeicas por dia, pretendo fazê-lo voltar à sua antiga situação de jornaleiro. Por outras palavras, cuido antes de mais nada dos meus interesses e considero, não sei porquê, essas quinze copeicas como um auxílio, um favor generoso, uma boa acção da minha parte. Ora vejamos: segundo um cálculo muito modesto, contanto sete copeicas por cabeça e cinco pessoas em cada família, seriam necessários trezentos e cinquenta rublos por dia para alimentar mil famílias. Aquela cifra determina as nossas relações obrigatórias, oficiais, para com essas mil famílias. Mas nós não damos trezentos e cinquenta rublos, longe disso: damos apenas dez e já lhe chamamos um grande subsídio, um socorro social. E por causa dessa modesta contribuição, achamo-nos no direito de dizer que sua esposa, e todos nós também, somos pessoa extraordinariamente boas, caritativas, e viva a humanidade! Aqui tem, meu caro amigo!… Quantos não haverá aí, filantropos cheios de sentimentalismo, que percorrem as casas com as listas de subscrição de donativos, num alarde de piedade, e não pagam ao alfaiate nem à cozinheira? Não há lógica nenhuma na nossa vida, nenhuma!


Anton Tchekov, A minha mulher
versão de Luiz Pacheco
Quasi Edições

~ por salamandrine em Junho 18, 2008.

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