o Tempo

Os espaços vitais encolheram; hoje em dia, o armário dos discos e a pilha de discos compactos ou de cassetes ocupam o lugar da estante dos livros, especialmente entre os mais jovens. O silêncio passou a ser um luxo. Só os mais afortunados podem ter esperança de conseguir escapar à invasão da gigantesca parafernália tecnológica. A cena do criado ou do empregado doméstico, no alto do seu escadote, a espanejar amorosamente os derradeiros volumes da biblioteca cheira a nostalgia suspeita. O tempo acelerou espantosamente, como Hegel e Kierkegaard foram os primeiros a fazer notar. Os vários momentos de tempo livre de que depende qualquer leitura séria, silenciosa e responsável tornaram-se apanágio quase exclusivo dos universitários e dos investigadores. Vamos matando o tempo, em vez de nos sentirmos à vontade dentro dos seus limites.


George Steiner, O Silêncio dos Livros
tradução de Margarida Sérvulo Correia
Gradiva

~ por salamandrine em Agosto 12, 2008.

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