a Censura

A relação entre censura e criatividade pode revelar-se estranhamente produtiva. O milagre literário do período isabelino ou da França de Luís XIV, como a história gloriosa da poesia e da ficção russas de Púchkin a Pasternak e a Brodsky parecem articular-se, numa dialéctica complexa, com as pressões que na altura se faziam sentir e com a ameaça da censura. O que quer que faça com que uma grande literatura seja subversiva, que diga «não» à barbárie, à estupidez, àquela ética capitalista, degradada, do consumo massificado que desvaloriza o nosso trabalho e as nossas vidas, essa qualquer coisa brotou sempre, como reacção, do território da censura e da opressão. «Esmaguem-nos», dizia Joyce à censura católica, «que nós somos como as azeitonas.» Ou, como sussurrava Borges: «A censura é a mãe da metáfora.» Quando o aparelho de repressão cede aos valores veiculados pelos mass media ou ao matraquear da publicidade, como acontece hoje em dia na Europa ocidental, assistimos ao triunfo da mediocridade.


George Steiner, O Silêncio dos Livros
tradução de Margarida Sérvulo Correia
Gradiva

~ por salamandrine em Novembro 27, 2008.

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