Clique

Clique. A máquina assustou um verdilhão que levantou voo, a baixa altura, à direita do monumento mal conservado. Ela nem se apercebeu. Ou se calhar sim, como acontece com muitos fotógrafos, que têm uma percepção de conjunto de tudo o que se passa no enquadramento, embora quando revelam as fotos estejam ávidos por se depararem com surpresas.
O papel branco, mergulhado num mundo de atmosfera vermelha, pouco a pouco ia cuspindo formas estranhas, retendo-as primeiro palidamente e logo a seguir de forma mais consistente. Sacudiu o papel dentro do líquido com umas pinças, e as formas transformaram-se em imagens, cada vez mais nítidas. Muito bem enquadrado, foi o que pensou inicialmente. Com as pinças, tirou o papel da bacia de revelação e pendurou-o no estendal, ao pé das fotografias do rolo número três, de cinco de Dezembro de dois mil e um, do cemitério de Torena. Muito bem enquadrada, sim.
Quando examinou o resultado daquela sessão, verificou que tudo tinha saído segundo as suas previsões, sem surpresas. Foi então que reparou no verdilhão que levantava voo, parado na foto, a do monumento arruinado. Não se lembrava dele. Bolas. Que… poesia.


Jaume Cabré, As Vozes dos Rio Pamano

tradução de Jorge Fallorca, Edições Tinta da China

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~ por salamandrine em Fevereiro 24, 2009.

2 Respostas to “Clique”

  1. :))) Já tenho lido muita coisa deliciosa sobre esse livro, mas com essa, definitivamente, conquistas-me :P

  2. uma das personagens principais é fotógrafa >;P

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