Índios e Cowboys

Ao fim do segundo dia aqui, algumas coisas que se vão ouvindo dizer, aqui e ali, tornam-se óbvias. Nada muda, é um facto, mas as supostas politicas de integração social são tão obviamente idiotas, que não se compreende quem as toma e se quem as toma alguma vez tentou alguma espécie de contacto com a realidade. Porque duvido que quem chegue perto desta realidade não consiga perceber o que é tão básico, que em meia dúzia de horas se percebe: a realidade dos bairros chamados problemáticos não se resolve realojando toda a comunidade em novos bairros sociais – apenas transporta o problema. Os bairros problemáticos não existem apenas devido à degradação de habitações ou falta de serviços básicos (saneamento, electricidade), nem têm apenas como causa a pobreza. É uma questão social, uma pescadinha de rabo na boca. E todas a gerações nascidas nas mesmas condições, vão viver pelas mesmas regras.
Quando a escola é uma continuação do bairro, quando é com violência que se cresce e com violência que se aprende que se vence, é a violência que vinga na consciência presente e futura.
Estes bairros não são só a violência, mas é a violência a nota que os domina. E a pobreza nem sempre é tão evidente. A existência num espaço sem saneamento básico não implica naturalmente que quem lá vive é pobre. Basta ir olhando os pormenores para se tornar óbvio que muitas das pessoas que aqui habitam, habitam por que querem, por hábito, por questões culturais e não apenas e só porque são pobres (embora haja, sem dúvida nenhuma, casos de pobreza extrema).
A vivência nestes bairros passa por uma vitimização e um hábito que cria um ciclo também evidente no contacto com estas crianças: o hábito de receber sem qualquer condição, a estranheza de ver alguém fazer algo sem nada receber em troca, a exigência de que se dás algo, podes sempre dar mais – porque é que não dás mais?

Reconheço a contradição do que digo, que ao dizer que eles são “vítimas das circunstâncias” que também sou uma das que alimentam o ciclo. Mas são-no mesmo. E por muito boas intenções que todas as instituições, que tentam melhorar a vida neste bairros, tenham e que façam realmente algo de bom, o que fazem não mata o mal que está na origem. Não seriam desnecessárias as instituições se os tirassem dos bairros?
Não existirão soluções relativamente óbvias? Vender ou ceder terrenos a construtores, recebendo em troca alguns fogos para realojamento. Não realojar toda a gente no mesmo sítio, mas acabar de vez com os bairros sociais. Matar o conceito de bairro social. Porque não a habitação social, em qualquer bairro?
Eu sei que estou a falar de cor, mas não me parece uma ideia assim tão descabida. Não estou a tentar dar aulas, porque me falta muito conhecimento para isso, mas é esta a minha percepção e não acho que esteja assim tão longe da realidade, mesmo que seja falha em pormenores mais ou menos importantes.

No fim do que nos levou lá, o workshop de fotografia, fica a tristeza e a frustração de não poder dar mais. De ter que os mandar para casa quando se começa a descobrir alguma vontade de ficar, para além das pizzas e da coca-cola.
E a certeza de que não me importava de repetir a experiência. Mesmo com músculos doridos e algumas nódoas negras, valeu a pena.
Vale a pena tentar fazer algo real e válido por estes miúdos. Dar-lhes uma verdadeira oportunidade. Tirá-los do ciclo vicioso que são os bairros e as escolas continuação dos bairros. Fazer com que descubram outros valores e outras maneiras de estar – não assimilar e matar traços culturais, mas apresentar outros. Escolas onde os outros miúdos não tenham medo deles, onde eles consigam ter espaço para aprender que afinal até não precisam de resolver tudo com violência.

Espaços onde existam castigos não violentos, onde a resposta a tudo não seja a violência. Onde irmãos que se zangam e que também andam à porrada, não tentem imediata e descontroladamente ferir gravemente o outro. Onde crianças de 12 e 13 anos não tenham que ser controladas à força de braços e portas fechadas, para que se evitem males maiores.
E que no fim se seja obrigado a desistir.

Índios e Cowboys

..: Galeria :..

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~ por salamandrine em Março 30, 2009.

5 Respostas to “Índios e Cowboys”

  1. :D Volto contigo para a guerra, anyday, anytime!!

  2. é que olho para as fotos e tenho saudades deles :)))

  3. É das galerias mais bonitas que vi tuas :)
    A expressão dos olhares, a luz, demais!
    Adoro retratos e pessoas.

  4. Deixa-me dizer que as fotos estão muuuuuuito boas! Valeu a pena a porrada, digo eu ;)

  5. Obrigada! :DDD
    digo sempre isto: saem-me sempre melhores as fotos de coisas que me apaixonam de alguma maneira.

    e sim, valeu tudo. não só pelas fotos :)

    também devo dizer, que no meio de todo aquele caos, nunca os miúdos foram directamente agressivos connosco nem realmente mal-educados. tudo o que aconteceu foi sempre dirigido uns aos outros.
    o que sofremos foram “danos colaterais”.

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