Teatro

se deixei de ir ao cinema porque deixei de aguentar estar fechada numa sala com a sensação de que a vida que está a passar lá fora sem mim, entrar numa sala de teatro é sentar-me e acolher mais um pedaço de vida que acorda.

o cinema pode fazer-me sorrir, sentir-me bem, dar-me paz. pode, sem qualquer espécie de dúvida, trazer algo mais à minha vida. só não acho que faça realmente diferença o ecrã de uma sala fechada e o ecrã em frente ao sofá da minha casa. é um ecrã, a história está filmada, as emoções estão fixadas. eu sei que qualquer cinéfilo se vai mandar ao ar a ler isto, mas para mim é assim. gosto de filmes, gosto de boas histórias, gosto de escolher o filme que vai com o meu estado de espírito do momento – o que só reafirma a minha opinião: está fixado.

o teatro… o teatro não. o teatro são emoções vivas, são actores que vestem peles todos os dias e que todos os dias dão, ou tentam dar, emoção aos que se sentam naquelas cadeiras, à espera de algo que lhes encha mais um bocadinho a alma.

ontem fui ao Dª Maria, no fim de uma semana particularmente difícil, quase obrigada por mim mesma. porque precisava distrair-me, porque são os Artistas Unidos, por que é Jorge Silva Melo. fui à procura de rever caras conhecidas dos tempos d’A Capital, e que tenho revisto tão (infelizmente) esporadicamente. não estava à espera de sair de lá nas nuvens, completamente embalada por toda aquela vida. tão contagiada pelo que se passava lá em cima (e cá em baixo, e lá para trás… e por todo o lado..), como se um vírus se estivesse espalhado pela sala. não estava à espera da estranheza de reconhecimento ao olhar para o espelho antes de me ir deitar e perceber que a estranheza era o meu reflexo sem o cenho franzido e cansado, e com um sorriso involuntário estampado na cara.

hoje, ao ler com calma o programa da peça, dou com isto:

AU na Capital

esfrego as mãos de contentamento e fico à espera. à espera que volte algo parecido àqueles anos; as idas ao teatro todas as semanas; o ver o Primeiro Amor do Beckett, no meu dia de anos, por duas vezes; assistir a peças como o 4.48 Psychosis da Sarah Kane e sair de lá incapaz de conduzir.
descobrir novos autores, novos actores e ir acompanhando-os ao longo dos anos. soon enough ainda é muito tempo.

tenho ainda que apontar que o começo do Diogo Infante no Dª Maria é muito auspicioso. e que o Dª Maria faz (neste momento) muito pelos espectadores de teatro. não teria de certeza visto as duas peças, não fossem os preços do dia do espectador, ou o preço do bilhete do dia. não sei sequer teria ido ver a peça na Sala Garrett. mas ter vontade de ver duas peças em cena ao mesmo tempo, num só espaço, acho que não me acontecia desde os tempos d’A Capital.

só mais um pequeno post scriptum ao Esta Noite improvisa-se: quando a Sílvia Filipe canta, é muito difícil dar qualquer tipo de atenção aos outro actores – ela deixa a sala suspensa.

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~ por salamandrine em Abril 4, 2009.

Uma resposta to “Teatro”

  1. Olá, mais um excelente apontamento longo :) Obrigado!

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