as cigarras

Saí para a rua e pus-me a pensar nisso em que levo o dia inteiro a pensar. Nas cigarras. Digo a mim própria que as cigarras têm toda a razão e que não sei quem foi o estúpido que um dia disse o contrário, não sei quem se lembrou de propor que as cigarras mudassem. Grande parvoíce. As formigas é que deviam mudar, pois, coitadas, são tão parvas. Dizer que uma cigarra deve trabalhar foi uma imbecilidade repetida durante séculos. As formigas sim, deviam ser cigarras, fazia-lhes bem o ócio, nenhuma formiga devia privar-se de uma sensação tão maravilhosa como a de saber dizer não, mandar ao inferno de uma vez por todas o seu feliz e pesado ninho laborioso.


Enrique Vila-Matas, Filhos sem Filhos

tradução de José Agostinho Baptista
© Assírio & Alvim

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~ por salamandrine em Agosto 1, 2009.

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