Presunção de sofrer

Seria que, na verdade, nada assume a forma que a nossa presunção de sofrer desejaria? E que a vida não correspondia ao nosso gosto sentimental do espectáculo e da importância das coisas? Ou nós, depois dos acontecimentos, deixávamos de poder vê-los nas suas dimensões verdadeiras, que dependiam estritamente das emoções do momento? Ou não deixaríamos de poder vê-los, mas, para que os acontecimentos e as pessoas não ficassem maiores do que nós mais tempo do que é suportável, ou mais tempo do que é do próprio tempo que passa, os reduzíamos, por uma espécie de malícia cobarde a dimensões menores que as que, na verdade, tinham tido, apenas para, diminuindo-os, lhes aplicarmos um efeito de distância, pela qual as coisas e as pessoas, uma vez vividas por nós, não mais são afectadas? Esta redução não seria um artifício que igualava as coisas e as pessoas vividas às que o não tinham sido? Não serviria para equiparar o realmente acontecido ao que poderia ter acontecido mas não acontecera? Não seria uma habilidade do nosso espírito para dar um carácter hipotético e virtual à realidade, quando ela nos pesava mais pela responsabilidade que havíamos tido nela? E, quando, portanto, se sentia, como eu sentia, alguma frustração por os acontecimentos não terem assumido mais que os aspectos comuns a outros sem a mesma transcendência, o que significaria isso: real frustração, espelhando o que exigimos das coisas e das pessoas mais do que elas podem dar (e precisamente porque nos eximimos nós a contribuir com a nossa parte para essas transcendências), ou consciência de culpa, inerente ao facto de, posteriormente, e segundo a nossa comodidade de espírito, termos reduzido a nada ou a muito pouco as pessoas e as coisas comprometidas connosco?


Jorge de Sena, Sinais de Fogo

Presunção de sofrer

 

Penso que deve existir para cada um
uma só palavra que a inspiração dos povos deixasse
virgem de sentido e que,
vinda de um ponto fogoso da treva, batesse
como um raio
nos telhados de uma vida, e o céu
com águas e astros
caísse sobre esse rosto dormente, essa fechada
exaltação.

Que palavra seria, ignoro. O nome talvez
de um instrumento antigo, um nome ligado
à morte — veneno, punhal, rio
bárbaro onde
os afogados aparecem cegamente abraçados a enormes
luas impassíveis.
Um abstracto nome de mulher ou pássaro.
Quem sabe? — Espelo, Cotovia, ou a desconhecida
palavra Amor.

Sei que a minha vida estremeceria, que
os braços sonâmbulos
iriam para o alto e queimariam a ligeira
noite de junho, ou que o meu
coração ficaria profundamente louco. E nessa
loucura
cada coisa tomaria seu próprio nome e espírito,
e cada nome seria iluminado
por todos os outros nomes da terra, e tudo
arderia num só fogo, entre o espaço violento
do mês de primavera e a terra
baixa e magnífica.


Herberto Helder

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~ por salamandrine em Dezembro 6, 2009.

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