instantes

Morelli tentava em certa medida justificar as suas incoerências narrativas, defendendo que, tal como a recebemos na chamada realidade, a vida dos outros não se trata de cinema, mas de fotografia, isto é, que não podemos apreender a acção senão em fragmentos cortados de forma eleática. Não existem senão os momentos em que estamos com esse outro cuja vida pensamos que compreendemos, ou quando nos falam dele, ou ainda quando ele nos conta o que lhe aconteceu ou nos revela aquilo que tem intenção de vir a realizar. No final temos um álbum de fotos, de instantes fixos: jamais o porvir a realizar-se diante dos nossos olhos, a passagem de ontem para hoje, a primeira estaca do esquecimento da memória.


Julio Cortázar, Rayuela

tradução de Alberto Simões
© Cavalo de Ferro

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~ por salamandrine em Junho 10, 2010.

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