seis pés por dois

— O serviço da igreja irlandesa praticado em Mount Jerome é mais simples, mais impressionante, devo dizer.
O senhor Bloom assentiu com prudência. A língua, é claro, era outra coisa.
O senhor Kernan disse com solenidade:
Sou a a ressurreição e a vida. Toca o mais íntimo do coração.
— É verdade, — disse o senhor Bloom.
O teu coração talvez, mas que interessa ao tipo metido entre seis pés por dois com os dedos nas margaridas? A esse não toca. Sítio das afeições. Coração destroçado. Afinal é uma bomba, a bombar milhares de galões de sangue por dia. Um belo dia, entope-se e aí temos. Montões deles mortos por aqui fora: pulmões, corações, fígados. Velhas bombas oxidadas: tudo o mais que se lixe. A ressurreição e a vida. Quando morreste, morreste. A ideia do último dia. Despertando-os a todos nas sepulturas. Levanta-te, Lázaro! E ele foi o quinto a chegar e perdeu o emprego. Levanta-te! O dia do juízo! E então cada tipo a procurar por aí pelo fígado e pelas tripas e pelo resto das coisas. Encontrar tudo, de si próprio, nessa manhã.


James Joyce, Ulisses

tradução de João Palma-Ferreira
Livros do Brasil

seis pés por um

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~ por salamandrine em Outubro 4, 2010.

2 Respostas to “seis pés por dois”

  1. Vem aí overdose, não tarda :)

  2. sempre a picar! :P

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