A democracia dos ignorantes

Sublinha a crescente influência maléfica dos ignorantes no rumo da democracia.
O problema é que numa democracia todos somos políticos. Não há uns especialistas que mandam e outros que são guiados. Logo, todos temos de ter algum conhecimento para poder intervir na sociedade. Se a maioria é completamente ignorante não pode argumentar nem entender a argumentação. Há que evitar essa situação e aumentar o nível médio de conhecimento para que todos possam intervir com competência.

E não cair na facilidade do discurso demagógico…
Um ignorante segue sempre o que é prometedor. As pessoas que não têm conhecimentos sobre nutrição preferirão sempre quilos de alimentos mais saborosos, embora com efeitos nocivos para a sua saúde. Se der a uma criança uma sopa nutritiva ou um prato de doces, ele escolherá o prato de doces, porque não sabe que lhe faz mal. Isso também acontece à escala dos adultos. Se um político promete o céu e a terra, de uma forma inverosímil mas atractiva, e outro exige sacrifícios de forma realista, para conseguir um país mais forte para todos, os ignorantes obviamente preferirão o primeiro.

Tem alguma ideia de qual é a representação percentual dessa massa de ignorantes numas eleições?
Não sei determinar. Mas o sintoma mais alarmante dessa ignorância pode ser medido nas televisões. Em Espanha, os programas de debate discutem os amores de fulana e beltrano. Há uma mulher em Espanha que é um fenómeno mediático. É famosa apenas pela sua ignorância cósmica e por dizer os maiores disparates. No entanto, uma sondagem feita numa rádio determinou que muitos espanhóis votariam nela para primeira-ministra. Na sequência disto, a rádio ligou-me para opinar sobre o assunto. “Vocês acreditariam que os mesmos espanhóis votariam nela para treinadora da selecção nacional?”, perguntei. E a resposta que obtive foi: “Não, claro que não! O lugar de treinador da selecção é um posto demasiado sério!” Ou seja, quando falamos de coisas sérias falamos de futebol, e quando falamos de política tudo é possível. Este tido de degradação do discurso é muito grave; e esse é o problema.

Também diz muito dos políticos ou da percepção dos políticos.

Os políticos somos todos nós. Se os políticos que ocupam os cargos são incompetentes, somos nós que os elegemos, e fomos nós, que apesar de acreditarmos que podemos ser melhores dos que eles não nos oferecemos para o lugar deles. os políticos não são seres de outro planeta que desceram à terra para nos dificultar a vida.

 


excerto da entrevista de Cristina Margato a Fernando Savater
Atual, 30 Outubro 2010

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~ por salamandrine em Outubro 31, 2010.

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