a grande enfermidade

Sentimos nostalgia de uma linguagem mais primitiva do que a nossa. Os antepassados falam de uma época em que as palavras se estendiam com a serenidade da planície. Era possível seguir o rumo e vaguear durante horas sem perder o sentido, porque a linguagem não se bifurcava e expandia-se e ramificava-se, até se converter neste rio onde estão todos os caudais e onde ninguém pode viver, porque ninguém tem pátria. A insónia é a grande enfermidade da nação. O rumor das vozes é contínuo e as suas mudanças soam noite e dia. Parece uma turbina que funciona com a alma dos mortos, diz o velho Berenson. Não há lamentos, só mutações intermináveis e significações perdidas. Viragens microscópicas no coração das palavras. A memória está vazia, porque esquecemos sempre a língua onde se fixaram as recordações.


Ricardo Piglia, Cidade Ausente

tradução de Jorge Fallorca
© Teorema

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~ por salamandrine em Dezembro 29, 2010.

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