Os Grandes Cabrões

Não é que eu seja um crustáceo de vaidade de machismo; é que a mim não me tinham treinado para interpretar como amor o brilho nos olhos de uma manca, maldita seja. Em todos os poemas que eu tinha lido, em todos os romances em que tinha mergulhado, em todos os filmes que tinha visto, as mulheres apaixonadas eram sempre belas e simétricas; não tinham defeitos, nem patas de galinha, nem tinham, naturalmente, a pata manca. E se a tinham, os cabrões dos poetas, escritores e cineastas tinham-na ocultado com palavras ou próteses, mentido à humanidade e lixando-me a vida a mim, porque a mim nunca ninguém me tinha dito que era possível apaixonarmo-nos por uma rapariga disforme. Alguém é capaz de me dizer em que poema de Petrarca, Garcilaso, Castillejo, Bécquer ou Gil de Biedma há taras, defeitos físicos ou simples assimetrias? E não estou a falar de imperfeições da pela, que podem ser uma formosa marca da passagem do tempo, etc., etc; estou a falar de ter uma perna mais comprida do que a outra, e estou-me a cagar para o resto.


Antonio Orejudo Utrilla, Vantagens em Viajar de Comboio

tradução de Jorge Fallorca
Minotauro

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~ por salamandrine em Março 14, 2011.

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