As Lições dos Mestres

Para ler seriamente é preciso silêncio. Não ponha música, tira a rádio e a televisão do quarto. Tem de saber viver, e conviver, com o silêncio. (Cada vez menos jovens querem viver com o silêncio. Na realidade, têm-lhe medo. O silêncio tornou-se, de resto, muito caro. Uma casa como esta, com um jardim sossegado, é uma exorbitância para um casal jovem, que vai possivelmente viver para um prédio, com paredes tão finas, que é possível ouvir tudo! Vivemos num inferno de ruído constante.) Tem de estar preparado — e não riam de mim — saber passagens de cor. Aquilo que amamos, devemo-lo saber de cor. Não é por acaso que «coração» em latim é «cor». Ninguém nos pode tirar nunca o que sabemos de cor. Deixem-frisar: saber, saborear de cor, com o coração, não com a cabeças. Queremos sempre levar connosco o que amamos. Eu sou muito velho, mas tento, todos os dias, ou quase todos, aprender um poema, ou fragmentos de um poema, de cor, porque é assim que se agradece uma bela obra. Que outra maneira tenho eu de agradecer a Dante, a Cervantes, a Lope de Vega ou a Shakespeare? A partir do momento em que sabemos um poema de cor, algumas poucas linhas, ele começa a viver dentro de nós. Em terceiro lugar, precisa de ter alguma privacidade. Esta última condição é tremenda, provavelmente a mais difícil, em especial, para os jovens de hoje. Actualmente a privacidade é o inimigo nº 1 de todo o jovem. Não só se confessa tudo a toda a gente, como é imperativo que o façamos imediatamente. Ninguém guarda a experiência, qualquer que ela seja, só para si. Então, três condições: silêncio, aprender de cor e privacidade. De outra forma, é impossível viver uma grande obra. Até porque as grandes obras são, geralmente, muito difíceis, exigentes. Querem algo de nós. Lêem-nos mais do que nós as lemos. Descobrem coisas sobre nós: se nos conseguimos concentrar, se estamos preparados para trabalhar no sentido de as percebermos realmente, etc. Tenho sempre um dicionário aberto na minha secretária. Os mais novos não usam dicionário. Empregam um vocabulário mínimo nas sms que enviam. Shakespeare usava 24 mil palavras. Num estudo muito recente, pela companhia telefónica americana Bell, o total de palavras usadas por 90 por centos dos americanos ao telefone é de 150 palavras. Estão a ver? É isto que me assusta.


George Steiner

entrevista de Beata Cieszynska e José Eduardo Franco
Revista LER nº 100

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~ por salamandrine em Abril 3, 2011.

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