Suttree

Suttree

Na Primavera do seu terceiro ano no rio houve chuvadas copiosas. Choveu durante todo o final de Março, até Abril, e ele lançava apenas uma linha de pesca no rio caudaloso e percorria-a todos os dias com fria repugnância enquanto a chuva o fustigava ao longo de quilómetros, fina e cinzenta. O interior da choupana estava frio e húmido, e ele mantinha o lume aceso no fogãozinho ao longo de tardes soturnas e sentava-se à mesa, diante da janela, com o candeeiro aceso, a contemplar o rio prestes a transbordar das margens que descia das terras altas esventradas e deslizava para jusante com um murmúrio ávido, a fervilhar.
Arrastava consigo lixo e destroços à tona, garrafas de vidro requeimadas por mil sóis em cujo seio jaziam, rebentadas, corolas cor de malva e de ouro, , cascas de laranja a que o tempo dera tons de âmbar. O cadáver de uma porca, rosado e tumefacto, e boiões e caixotes e formas de madeira torneadas pela água até parecerem réplicas hirtas de vísceras, e latas de óleo vazias presas em olhos côncavos de vasa onde os espectros pestanejam com ar culpado.
Certo dia um bebé morto. Inchado, olhos flácidos e apodrecidos num crânio bulboso e pequenos farrapos de carne a ondular na água como papel higiénico


Cormac McCarthy, Suttree

tradução de Paulo Faria
© Relógio D’Água

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~ por salamandrine em Julho 21, 2011.

2 Respostas to “Suttree”

  1. ;)

  2. fogo… quando uma pessoa se revê em traços de uma personagem destas….

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