Watt

Olhei-me ao espelho e não me reconheci. Depois, pensei naquilo que dizia Baudelaire: que o verdadeiro herói é o que se diverte sozinho. Voltei a olhar-me ao espelho e detectei em mim algumas parecenças a Watt, aquele solitário personagem de Samuel Beckett. Tal como Watt, eu poderia ser descrito da seguinte forma: um autocarro pára à frente de três velhos repugnantes que o observam sentados num banco público. O autocarro arranca. «Olha (diz um deles), deixaram um monte de trapos.» «Não (diz o segundo), é um balde de lixo.» «Não (diz o terceiro), é um maço de jornais velhos que alguém atirou para ali.» Nesse momento o monte de restos avança para eles e pede para se sentar no banco com enorme grosseria. É Watt.


Enrique Vila-Matas, Bartleby & Companhia

tradução: José Agostinho Baptista
© Assírio & Alvim


Watt

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~ por salamandrine em Agosto 9, 2011.

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