Para um Futuro II

Os países ricos quase sempre podem encontrar recursos para pagar benefícios sociais, se o decidirem, mas o modo de fazê-lo é em primeiro lugar uma decisão política. Sempre existiram duas maneiras básicas de financiar esses benefícios. Uma é o estado tributar o trabalho: encarregando os trabalhadores e os patrões de ajudar a pagar uma série de serviços sociais, incluindo subsídios de desemprego a esses mesmo trabalhadores se perderem o emprego. Isso torna a mão-de-obra e as mercearias caras (ao aumentar as despesas dos empregadores, mas tem a atracção de um certo tipo de igualdade; também funcionou muito bem na época do pós-guerra, de economias com salários elevados e pleno emprego, pois recheou os cofres do Estado quando havia poucos desempregados e pensionistas. O sistema alternativo, universal, cobra ao país inteiro, através de tributação directa e indirecta, serviços sociais que depois são disponibilizados aos que deles necessitarem.
Hoje, com o desemprego em alta, é tentador preferir a segunda opção, universal, visto os governos estarem a tentar reduzir o custo do trabalho aos empregadores (e com menos gente a trabalhar, há menos cheques de vencimento a tributar). Mas os riscos políticos implicados na cobrança a cada eleitor de serviços de que só alguns (os desempregados, os idosos, os doentes) irão beneficiar são elevados, embora talvez não tão elevados como não providenciar serviços nenhuns, pois os deficientes, os mais velhos e os desempregados também votam.
Existe actualmente uma terceira opção, de que se tem seguido uma versão nos Estados Unidos e agora na Grã-Bretanha – cortar os benefícios e adaptar os subsídios, de desemprego e outros, ao historial (e rendimento) do trabalho prévio de uma pessoa, e à sua prontidão em encontrar e aceitar emprego quando disponível. Diz-se agora que esta é a política social adequada a uma economia global: penaliza a relutância de aceitar um emprego com salário normal, reduz as despesas dos empregadores e limita a responsabilidade do Estado.
Esta terceira opção, por muito ordenadamente que responda às forças do mercado global, presume ironicamente o mesmo conjunto de circunstâncias cujo desaparecimento levou à sua criação: a existência de empregos, a inexistência de uma interrupção prolongada de experiência laboral devido a desemprego involuntário, e sobretudo salários suficientemente altos para que a percentagem deles destinada ao subsídio de desemprego baste para que uma pessoa ou família não caia na pobreza até haver trabalho. Ela pressupõe o género de trabalhador e perfil de trabalho que está em rápido desaparecimento exactamente nos lugares onde se estão a considerar ou a implementar essas políticas. O resultado só pode ser maior pobreza, uma distância maior entre homens e mulheres excluídos da comunidade que trabalha, recebe e paga impostos, que os irá encarar compreensivelmente com medo e suspeição.
Esses são os perdedores – os que deixaram de ser especializados, os não-especializados, os trabalhadores a tempo parcial, os imigrantes, os desempregados – todos vulneráveis devido ao estado da economia, mas sobretudo porque perderam as formas de filiação institucional, apoio social e solidariedade ocupacional relacionadas com o trabalho, que dantes caracterizavam o proletariado industrial explorado. São eles os menos capazes de beneficiar da hipotética mais-valia de uma economia global, ou mesmo de uma economia europeia integrada: não podem prontamente ir procurar trabalho noutro lado, e mesmo que pudessem não encontrariam os benefícios sociais e psíquicos que outrora o acompanhavam, e seriam apenas exclus noutro lado qualquer. O capital pode separar-se do seu dono e viajar pelo mundo à velocidade do som e da luz. Mas o trabalho não pode ser separado de quem o faz, e quem o faz não é só um trabalhador, mas também o membro de uma ou mais comunidades – um residente, um cidadão, um nacional.


Tony Judt

O Renascimento da Questão Social, O Século XX Esquecido

tradução de Marcelo Felix
© Edições 70

 

(bold meu)

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~ por salamandrine em Janeiro 4, 2012.

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