os meus óculos não são redondos.

A noite tinha caído sobre a casa e eles continuavam nos cadeirões, na galeria, com as luzes apagadas, exceto um candeeiro atrás, na sala, a olharem para o jardim calmo e as luzes do outro lado da casa. Passado um pouco, Sofia levantou-se e pôs um disco dos Moby Grape e começou a mover-se a dançar no seu lugar, enquanto tocava «Changes».
— Gosto dos Traffic, gosto dos Cream, gosto dos Love — disse, e voltou a sentar-se. — Gosto dos nomes dessas bandas e gosto da música que fazem.
— Eu gosto de Moby Dick.
— Sim, imagino… Tiram-te os livros e ficas desorientado. A minha mãe é a mesma coisa, só está calma se estiver a ler… Quando deixa de ler fica neurasténica.
— Louca quando não lê e não louca quando lê…
— Estás a vê-la, ali…?, vês a luz acesa…?
Havia um pavilhão do outro lado do jardim, com dois grandes janelões iluminados, onde se via uma mulher com o cabelo branco preso, a ler e a fumar num cadeirão de couro. Parecia estar noutro mundo. De repente tirou os óculos, levantou a mão direita e procurou atrás, às apalpadelas, numa estante da biblioteca que não se conseguia ver, um livro azul, e depois de encostar a página contra a cara, voltou a pôr os óculos redondos, ajeitou-se no grande cadeirão e continuou a ler.
— Lê o tempo todo — disse Renzi.
— Ela é a leitora — disse Sofia.


Ricardo Piglia,
Alvo Noturno

tradução de Jorge Fallorca
© Teorema

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~ por salamandrine em Fevereiro 11, 2012.

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