Reclusão

Passar o dia inteiro em silêncio, não ler jornais, não ouvir rádio, não ouvir bisbilhotices, passar o dia numa profunda e completa preguiça, profunda e completamente indiferente ao destino do mundo é o melhor remédio que uma pessoa pode dar a si mesma. O que se aprende em livros escoa-se gradualmente, os problemas liquefazem-se e dissipam-se; os laços rompem-se suavemente; o pensamento, quando condescendemos em entregar-nos a ele, revela-se muito primitivo; o corpo transforma-se num instrumento novo e maravilhoso; olha-se para as plantas, ou para as pedras, ou para os peixes, com olhos diferentes; perguntamo-nos o que tentam as pessoas alcançar com as suas actividades frenéticas; sabe-se que há uma guerra, mas não se faz a mínima ideia do que a causou ou porque gostam as pessoas de se matar umas às outras; olhamos para um país como a Albânia — que me saltava constantemente à vista — e dizemos para nós mesmos, ontem era grego, hoje é italiano, amanhã talvez seja alemão ou japonês, e deixamo-lo ser o que bem lhe apetecer. Quando se está bem consigo mesmo, pouco importa a bandeira sob a qual vivemos, ou o que pertence a quem, ou se fala ingªes ou monongabela.


Henry Miller, O Colosso de Maroussi

tradução de Raquel Mouta
© Tinta da China

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~ por salamandrine em Junho 5, 2013.

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