um dia

Este é o tipo de coisas, pensei eu, que nunca conseguimos ver nas notícias da televisão. São silenciosas conspirações de pessoas que parecem entender-se sem falar, caladas rebeliões que a cada momento têm lugar no mundo sem que sejam apercebidas, grupos que se formam ao acaso, espontâneas reuniões no meio do parque ou na esquina escura, e que nos permitem, de em quando, ser optimistas a respeito do futuro da humanidade. Juntam-se durante uns minutos e depois separam-se, e todos se afirmam na luta subterrânea contra a miséria moral. Um dia, sublevar-se-ão com fúria inédita e dinamitarão tudo.

 

Enrique Vila-Matas, Kassel não convida à lógica

tradução de Miranda das Neves
Teodolito
silenciosa rebelião

 

 

Zanguei-me com o Vila-Matas quando aceitou deixar de ser traduzido pelo Fallorca. Mesmo que já só o lesse em castelhano. Zanguei-me. Com as tricas, com a passividade, com o desgosto.
Volto a lê-lo traduzido. Não vou dizer que está mal traduzido. Não está. Falta-lhe a cumplicidade flâneur de Fallorca, um entendimento para lá das palavras. É uma ausência que paira entrelinhas. Hoje, no dia em que ele me gozaria por me ver, finalmente, calçar uns sanjo em vez dos meus all-star.

Saudades da fúria pouco silenciosa dele.

 

 

… há muito tempo que não liga algo que me comovesse…

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~ por salamandrine em Maio 14, 2015.

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