Foi há um ano. Foi sempre há mais tempo do que as certezas que temos.
Foi há pouco mais de um ano que vi pela última vez o Bernardo Sassetti: nos degraus do Teatro Camões, cheio de gente e de sorrisos. Minutos depois estava num palco imenso, cheio dele, da música dele, dos bailarinos, música com ele.
Hoje, ao subir aqueles degraus, senti novamente o baque de uma ausência que não se apaga.
Lembrá-lo num dos lugares mais bonitos onde o vi e vir novamente com música movimento a bailar-me nos olhos.
Alguém me permitiu que chegasse a esta idade
fazendo perguntas. Boa alma, essa
que leu em mim o aguilhão das dúvidas
e o achou legítimo e me permitiu que às vezes
fizesse umas perguntas de trazer por casa.
As outras perguntas, as menos correntes,
aquelas a cujo cofre só sábios têm acesso
(e para as quais aliás nunca encontram resposta,
tal qual eu para as minhas — estou vingado),
essas foram-me escondidas
como de uma criança o frasco da compota.
Ainda assim, impostos dessa forma
limites aos meus passos inquietos,
agradeço o benefício. Porque enfim
podia ter nascido ser a urgência
de inquirir coisa nenhuma.
Podia dar-me por satisfeito assim,
aninhado numa rábula qualquer.
Ronronar como um gato que o dono afaga
maquinal atrás da orelha enquanto lê.
Com acesso garantido a um lugar de balcão
com vista para a bem-aventurança.
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