não sei que te diga.
estou aqui, onde sempre estive, onde acho que sempre estarei.
o mundo mudou há, pelo menos, uma década. uma década no mesmo lugar. onde o ontem passou a ser hoje. onde amanhã, desconfio, será sempre no mesmo lugar.
cá me encontras.
( )
•Janeiro 28, 2012 • Deixe um Comentário( )
•Janeiro 27, 2012 • Deixe um Comentárionão preciso que o marcador cronológico me diga que tenho (quase) 40 anos.
eu sei que eles estão cá. não me pesam, mas marcam cada vez mais a distância para os outros. as infatilidades, as facilidades, a ingenuidade, uma falsa fé, a “felicidade”, a ignorância e a estupidez. a tanta estupidez que me agride todos os dias, a ignorância que me ofende. o desinteresse, o desapego a tudo longe do carrocel mais próximo.
e, às vezes, um cansaço maior do que os 40.
e finalmente
•Janeiro 14, 2012 • Deixe um Comentáriochove.
chove. e está frio. cheira a terra molhada, a relva, a canela e cravos da índia.
anda-se à chuva, olha-se ao alto e espera-se a ruiva. respira-se fundo e aproveita-se o ar a lareira, a chuva que nos lembra o inverno, o cheiro a canela.
a propósito
•Janeiro 13, 2012 • Deixe um ComentárioViria a propósito interrogarmo-nos, no entanto, onde se encontra a verdade, onde estamos mais perto do real, se nas angústias nocturnas ou na relativa narcose dos dias.
da realidade
•Janeiro 12, 2012 • Deixe um ComentárioA verdade é que não acredito na existência das musas. Em primeiro lugar penso que o bichanar da criatividade, o sussurro do daimon e dos brownies, conseguem-se sempre à base de esforço (como dizia Picasso, que a inspiração te apanhe a trabalhar); e além disso estou convencida de que os musos e musas mais eficazes não são os amados reais, mas as ilusões passionais. Ou seja, a fabulação pura. Quanto mais longínqua, mais frustrada, mais impossível, mais irreal, mais inventada for a relação sentimental, mais possibilidades tem de servir de incentivo literário. Aquilo que é imaginário espicaça a imaginação, enquanto a realidade pura e dura, o ruído próximo da vida de cada um, é uma péssima influência literária.
Rosa Montero, A Louca da Casa
tradução de Helena Pitta
Asa Editores
This one goes out to
•Janeiro 7, 2012 • 2 Comentários
Para sermos nós próprios temos de alguma forma de o ser contra os nossos irmãos; eles são os nossos outros eus possíveis, espelhos de madrasta onde nos contemplamos, e ocorre-me que talvez esta espécie de descaroçamento pessoal, esta falta de construção do eu que parecem revelar alguns dos adolescentes actuais, pode dever-se também, entre outras coisas, a muitas das crianças de hoje serem filhos únicos e estarem por isso privadas do reflexo desse outro que podia ser ele mas que é suficientemente diferente para lhe permitir a sua existência.
Rosa Montero, A Louca da Casa
tradução de Helena Pitta
Asa Editores
Para um Futuro II
•Janeiro 4, 2012 • Deixe um ComentárioOs países ricos quase sempre podem encontrar recursos para pagar benefícios sociais, se o decidirem, mas o modo de fazê-lo é em primeiro lugar uma decisão política. Sempre existiram duas maneiras básicas de financiar esses benefícios. Uma é o estado tributar o trabalho: encarregando os trabalhadores e os patrões de ajudar a pagar uma série de serviços sociais, incluindo subsídios de desemprego a esses mesmo trabalhadores se perderem o emprego. Isso torna a mão-de-obra e as mercearias caras (ao aumentar as despesas dos empregadores, mas tem a atracção de um certo tipo de igualdade; também funcionou muito bem na época do pós-guerra, de economias com salários elevados e pleno emprego, pois recheou os cofres do Estado quando havia poucos desempregados e pensionistas. O sistema alternativo, universal, cobra ao país inteiro, através de tributação directa e indirecta, serviços sociais que depois são disponibilizados aos que deles necessitarem.
Hoje, com o desemprego em alta, é tentador preferir a segunda opção, universal, visto os governos estarem a tentar reduzir o custo do trabalho aos empregadores (e com menos gente a trabalhar, há menos cheques de vencimento a tributar). Mas os riscos políticos implicados na cobrança a cada eleitor de serviços de que só alguns (os desempregados, os idosos, os doentes) irão beneficiar são elevados, embora talvez não tão elevados como não providenciar serviços nenhuns, pois os deficientes, os mais velhos e os desempregados também votam.
Existe actualmente uma terceira opção, de que se tem seguido uma versão nos Estados Unidos e agora na Grã-Bretanha – cortar os benefícios e adaptar os subsídios, de desemprego e outros, ao historial (e rendimento) do trabalho prévio de uma pessoa, e à sua prontidão em encontrar e aceitar emprego quando disponível. Diz-se agora que esta é a política social adequada a uma economia global: penaliza a relutância de aceitar um emprego com salário normal, reduz as despesas dos empregadores e limita a responsabilidade do Estado.
Esta terceira opção, por muito ordenadamente que responda às forças do mercado global, presume ironicamente o mesmo conjunto de circunstâncias cujo desaparecimento levou à sua criação: a existência de empregos, a inexistência de uma interrupção prolongada de experiência laboral devido a desemprego involuntário, e sobretudo salários suficientemente altos para que a percentagem deles destinada ao subsídio de desemprego baste para que uma pessoa ou família não caia na pobreza até haver trabalho. Ela pressupõe o género de trabalhador e perfil de trabalho que está em rápido desaparecimento exactamente nos lugares onde se estão a considerar ou a implementar essas políticas. O resultado só pode ser maior pobreza, uma distância maior entre homens e mulheres excluídos da comunidade que trabalha, recebe e paga impostos, que os irá encarar compreensivelmente com medo e suspeição.
Esses são os perdedores – os que deixaram de ser especializados, os não-especializados, os trabalhadores a tempo parcial, os imigrantes, os desempregados – todos vulneráveis devido ao estado da economia, mas sobretudo porque perderam as formas de filiação institucional, apoio social e solidariedade ocupacional relacionadas com o trabalho, que dantes caracterizavam o proletariado industrial explorado. São eles os menos capazes de beneficiar da hipotética mais-valia de uma economia global, ou mesmo de uma economia europeia integrada: não podem prontamente ir procurar trabalho noutro lado, e mesmo que pudessem não encontrariam os benefícios sociais e psíquicos que outrora o acompanhavam, e seriam apenas exclus noutro lado qualquer. O capital pode separar-se do seu dono e viajar pelo mundo à velocidade do som e da luz. Mas o trabalho não pode ser separado de quem o faz, e quem o faz não é só um trabalhador, mas também o membro de uma ou mais comunidades – um residente, um cidadão, um nacional.
Tony Judt
O Renascimento da Questão Social, O Século XX Esquecido
tradução de Marcelo Felix
© Edições 70
(bold meu)
Para um Futuro
•Janeiro 2, 2012 • Deixe um ComentárioO desemprego nos EUA é mais baixo do que o da muitos países europeus (mas os Americanos sem trabalho logo perdem os seus subsídios de desemprego e são retirados dos registos, pelo que estas estatísticas podem ser enganadoras). Parece que a América é melhor do que a Europa a criar postos de trabalho. Há muitos mais adultos americanos a trabalhar, e trabalham muito mais do que os europeus. O que recebem pelo esforço?
Não muito a menos que estejam em boa situação financeira. Os EUA são um excelente lugar para se ser rico. Em 1980 o director executivo médio norte-americano ganhava 40 vezes mais do que o trabalhador manual médio. Para o escalão de topo dos directores executivos a proporção agora é de 475 para 1, e seria muito maior se os bens, e não só o salário, fossem considerados. Por comparação, a proporção na Grã-Bretanha é de 24:1, na Franca 15:1, na Suécia 13:1. Uma minoria privilegiada tem acesso aos melhores cuidados médicos do mundo. Mas 45 milhões de Americanos não possuem qualquer seguro de saúde (dos países desenvolvidos do mundo, só os EUA e a África do Sul não oferecem cobertura médica universal). Segundo a Organização Mundial de Saúde, os Estados Unidos são o primeiro lugar em cuidados de saúde per capita – e o 37º lugar na qualidade do seu serviço.
Como consequência, os Norte-Americanos vivem menos do que os europeus ocidentais. Os seus filhos têm mais probabilidades de morrer na infância: os EUA ocupam o 26º lugar entre as nações industrializadas em termos de mortalidade infantil, com uma taxa que é o dobro da sueca, maior do que a eslovena, e só ligeiramente menor do que a lituana – e isso apesar de gastarem 15% dos seu PIB em «cuidados de saúde» (a maior parte escoados nas despesas administrativas das redes privadas). Em contraste a Suécia só gasta 8% do PIB em saúde. A situação na educação é muito semelhante. No conjunto, os Estados Unidos despendem muito mais em educação do que os países da Europa Ocidental; e têm de longe as melhores universidades de investigação do mundo. Contudo, um estudo recente sugere que por cada dólar gasto na educação, os EUA obtêm resultados piores do que qualquer outro país industrializado. As crianças norte-americanas apresentam regularmente resultados inferiores às europeias, em literacia e numeracia.
Tony Judt
O Século XX Esquecido
tradução de Marcelo Felix
© Edições 70
(bold meu)
um bocadinho de optimismo
•Janeiro 1, 2012 • Deixe um ComentárioMaio
Junho

Julho

E votos que o meu extraordinariamente simpático vizinho de baixo desista do papel de bom vizinho, recebendo as minhas encomendas sempre que não estou em casa – ou seja: sempre -, para me entregar quando me encontrar – ou seja: coisa para uma semanita ou mais -, com o seu melhor sorriso e pose digna de um Américo Silva ou de um António Simão: “Fiz bem, não fiz?”
subitamente
•Janeiro 1, 2012 • 1 ComentárioErasmo está a passear-se na ruam numa noite de inverno, sob chuva intensa, quando vê um pequeno pergaminho impresso — estávamos no dealbar da imprensa — e grita: «Milagre, milagre, uma palavra, uma palavra!» Descobrir uma palavra no chão, numa esquina; descobrir subitamente, um livro que começa a falar-nos e que pode mudar a nossa vida. São estes os milagres.
George Steiner
Revista LER nº 107
Yo Soy…
•Dezembro 31, 2011 • Deixe um Comentáriomis alas?
dos pétalos podridos
mi razón?
copitas de vino agrio
mi vida?
vacío bien pensado
mi cuerpo?
un tajo en la silla
mi vaivén?
un gong infantil
mi rostro?
un cero disimulado
mis ojos?
ah! trozos de infinito
Alejandra Pizarnik
2007
•Dezembro 31, 2011 • Deixe um Comentáriose não quiser mais nada. o tempo para mim, a disposição que quiser, dividido em partes do todo.
o todo sou eu. o todo, o tempo que tenho meu. a vida que só é minha. se não quiser mais nada, se só quiser agora.
Five Rings
•Dezembro 31, 2011 • Deixe um Comentárioen la noche del corazón.
en el centro de la idea negra.
ningún hombre es visible.
nadie está en algún jardín.
Alejandra Pizarnik
lo que nadie comenzó
•Dezembro 25, 2011 • Deixe um Comentáriohas construido tu casa
has emplumado tus pájaros
has golpeado al viento
con tus propios huesos
has terminado sola
lo que nadie comenzó
Alejandra Pizarnik
many names
•Dezembro 23, 2011 • Deixe um ComentárioAllies
And friends
You sure travelled
By many roads
Bastards
And foes
You sure travelled
By many names
Brand me love
Scar me life
The sun goes down
For everyone
The sun sets on everyone
Blessings turned beasts
Left me careless
And unaware
Curses turned gifts
I was struck down
But I could rise
Scar me life
The sun goes down
For everyone
The sun sets on everyone.
































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